O nojo justo e a fuga perigosa
O nojo justo e a fuga perigosa
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Comecemos por dar razão ao nojo. Quem olha a vida pública e sente repulsa não está enganado sobre os fatos: há mesmo mentira organizada, há compra de consciências, há gente que busca o poder pelo que ele rende, e não pelo que ele serve. O escândalo é real, e fingir que não é seria a primeira das ingenuidades. A tradição cristã nunca teve ilusões quanto a isto — Santo Agostinho escreveu, sem rodeios, que um reino sem justiça não passa de um grande bando de ladrões, só que mais bem organizado. O realismo sobre a corrupção do poder é sabedoria antiga, não descoberta de cínicos modernos.
Do diagnóstico certo, a conclusão errada
O engano não está no diagnóstico; está na conclusão que dele se tira. «A política é suja, logo afasto-me dela» — a frase parece prudência, mas é o contrário. Porque a cidade não fica sem governo enquanto os honestos se recolhem; ela é governada assim mesmo — só que por aqueles que não têm o menor escrúpulo em governá-la. A abstenção do bom não cria um vazio limpo: cria um espaço que o mau ocupa de imediato. Atribui-se a frase a muitos, e ela continua verdadeira em qualquer boca: quando os homens de bem nada fazem, o mal não precisa de mais nada para vencer.
Há uma ilusão de pureza nessa retirada. Imagina-se que, não tocando na política, permanecemos incontaminados. Mas não permanecemos: continuamos a viver sob as leis que outros fizeram, a pagar os impostos que outros gastam, a criar os filhos na cidade que outros moldaram. A neutralidade é um mito reconfortante. Não decidir também é decidir — decidir que decidam por nós, e mal.
Participar é um dever, não um gosto
Por isso a Igreja fala da participação na vida pública não como um passatempo para os que gostam de política, mas como um dever que decorre da caridade. Não é preciso candidatar-se a nada para o cumprir: cumpre-o quem se informa a sério, quem vota com a consciência formada, quem defende o bem comum na sua rua, na sua profissão, no seu voto. O que não é lícito é a deserção — lavar as mãos e deixar a cidade à própria sorte, como quem não devesse nada a ninguém.
E convém não confundir a fuga com a paz de espírito. Quem se afasta por comodismo, e chama a isso pureza, engana-se a si mesmo: a sua tranquilidade é feita do sacrifício alheio. Alguém há de carregar o peso da coisa pública; se não formos nós, será outro — e talvez alguém que não devêssemos ter deixado carregá-lo.
O nojo bem empregado
Nada disto significa engolir a política tal como está. O nojo, esse, pode ser bem empregado: não como pretexto para sair, mas como energia para exigir melhor — homens melhores, critérios mais altos, uma vida pública que corresponda ao que ela deveria ser. O asco pela corrupção é saudável quando se converte em sede de justiça; é apenas covardia disfarçada quando se converte em desculpa para não olhar. Esta via aposta na primeira coisa: usar a repulsa como bússola, não como porta de saída.
O que fazer
- Quando sentir o impulso de dizer «não me meto nisso», reconheça a parte de verdade — e desconfie da conclusão. O diagnóstico da sujeira é justo; a deserção que dele se tira, não.
- Cumpra o dever mínimo da cidadania com seriedade: informe-se nas fontes, não nos boatos, e vote com a consciência formada. Não decidir é deixar que decidam por você.
- Transforme o nojo em exigência. Em vez de baixar os braços diante do que é, levante a régua do que deveria ser — e cobre-a de quem pede o seu voto.
Para aprofundar
- Santo Agostinho, A Cidade de Deus, livro IV — «sem justiça, que são os reinos senão grandes bandos de ladrões?»
- Nota doutrinal sobre a participação dos católicos na vida política (Congregação para a Doutrina da Fé, 2002) — o dever e o direito de participar