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Para que serve o poder

Para que serve o poder

4 min de leitura

Há uma pergunta que quase todo o debate político pula, e que é a primeira de todas: para que serve o poder? Discutimos sem fim quem deve mandar, e mal paramos para pensar por que se manda — como se fosse óbvio, como se o poder fosse um bem em si, uma coisa boa de ter. Não é. O poder é um meio, e um meio só se avalia pelo fim a que serve. Uma faca é boa para cortar o pão e boa para ferir; o que a qualifica não é o gume, é o uso. Com a autoridade dá-se o mesmo.

O poder que se toma por fim

A doença política mais funda começa aqui, neste ponto quase invisível: quando o poder deixa de ser meio e passa a ser fim. Quando alguém já não quer o cargo para fazer o bem, mas quer o bem apenas na medida em que ele lhe rende o cargo. É uma inversão silenciosa, e quase sempre disfarçada de serviço — pois ninguém diz «busco o poder pelo poder»; diz-se sempre que se busca o bem do povo. A pergunta que desmascara é outra, e voltaremos a ela: se o servir e o mandar entrassem em conflito, qual dos dois este homem largaria?

Uma raiz em quatro tempos

Esta seção não responde ainda «quem» nem «como» — responde «para quê», descendo à raiz da autoridade em quatro passos. Primeiro, que toda autoridade vem de Deus, e por isso é recebida, não inventada: quem manda presta contas a Quem lhe confiou o mandar. Segundo, que reger é servir — a inversão cristã que fez do maior aquele que se põe por último. Terceiro, que aquilo que a autoridade serve tem um nome preciso, o bem comum, que não se confunde nem com o interesse de um nem com a massa dos interesses de todos. E quarto, o mais fundo: que governar bem é imitar Aquele que É — servir o ser, a verdade, o real — e que essa imitação é difícil justamente porque exige esvaziar-se de si.

O que esta seção percorre

  • 1.1 · Toda autoridade vem de Deus — o poder como depósito confiado, não como propriedade de quem o exerce.
  • 1.2 · Reger é servir — Cristo que lava os pés e a inversão que faz do governo um serviço.
  • 1.3 · O bem comum não é a soma dos interesses — o que a autoridade serve, contra o individualismo e o coletivismo.
  • 1.4 · Imitar Aquele que É — governar como serviço ao ser e à verdade, à imitação do Deus que Se fez servo.

Comece pela origem de todo mandar legítimo: toda autoridade vem de Deus — e o que isso muda em quem a exerce.


Para aprofundar

  • Santo Tomás de Aquino, Do Reino (De Regno) — o fim do governo é o bem comum, não o proveito do governante
  • Catecismo da Igreja Católica, §§1897-1904 — a autoridade, a sua necessidade e os seus limites

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