Como pesar um candidato
Como pesar um candidato
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Tudo o que esta via percorreu converge aqui, no ato mais concreto de todos: pesar quem pede o nosso voto. Não se trata de uma fórmula que dispense o juízo — não há tabela que substitua a prudência —, mas de um conjunto de olhares que, aplicados com honestidade, revelam quase sempre o que a propaganda esconde. São nove perguntas, e cada uma procura desmascarar um vício. Faça-as diante de qualquer candidato, partido ou coligação, e faça-as também, um dia, diante de si mesmo, se o chamado à vida pública o alcançar.
As nove perguntas
1. O fim — poder ou serviço? Por que este homem busca o poder? A vida dele, antes deste momento, já mostrou sacrifício pelos outros — ou apenas a escalada de si mesmo? Volte à pergunta que separa o pastor do mercenário: entre continuar no cargo e fazer o bem, o que ele largaria? O vício a detectar é o poder tomado por fim, a libido de mandar disfarçada de vontade de servir.
2. A coerência — o dizer e o fazer. O que ele faz corresponde ao que diz? A vida privada confirma o discurso público, ou há um homem para as câmaras e outro para os bastidores? Meça a distância entre a palavra e a obra, sobretudo quando dizer a verdade lhe custou. O vício a detectar é a hipocrisia, a vida partida em dois.
3. Os valores — os dele e os meus. Aquilo por que ele luta são bens reais e universais — a vida, a justiça, a família, a verdade, o cuidado do fraco — ou interesses de um grupo e bandeiras de ideologia? E coincidem com aquilo que eu tenho por verdadeiro e por bom? Votar em quem luta contra o que sei ser o bem é emprestar a minha força ao que reprovo. O vício a detectar é o relativismo, a bandeira vazia que muda conforme convém.
4. A verdade — os fatos e a mentira. Ele diz a verdade dos fatos mesmo quando ela lhe é desfavorável? Ou manipula números, promete o impossível, reescreve o passado, cultiva o medo? Aplique aqui tudo o que a seção do discernimento ensinou. O vício a detectar é a mentira e a demagogia.
5. O histórico — o passado. O que ele efetivamente fez até hoje? A quem serviu quando teve poder? Que rasto deixou nos cargos por onde passou? Cumpriu o que prometeu da última vez? A promessa mostra o que ele quer que eu acredite; o histórico mostra o que ele é. O vício a detectar é a biografia inventada, a coerência fabricada para a ocasião.
6. A competência — executar. Ele é capaz de realizar o que promete? Há, atrás dele, obras terminadas e contas que fecharam — ou apenas planos e discursos? E, se as suas decisões falharem, quem paga o preço: ele, ou sempre os outros? O vício a detectar é a promessa sem obra, e o decisor que arrisca a pele alheia.
7. O caráter — as virtudes. É prudente no ver, justo no dar, corajoso no sustentar, senhor de si no desejar? Numa palavra: é um homem que eu daria como exemplo a um filho? Porque o cargo não corrige o caráter — amplia-o: o vício privado que hoje parece pequeno, amanhã, com poder, faz estrago em escala. O vício a detectar é o defeito de caráter que a função multiplica.
8. A firmeza — a incorruptibilidade. Ele resistiria à pressão, ao suborno, à ameaça? Dá sinais de estar disposto a perder o cargo — ou mais — antes de trair o bem? Ou já se dobrou, no pequeno, a quem tinha força para o pressionar? O vício a detectar é a venalidade e a covardia, a cedência que começa miúda e termina total.
9. O desapego — a entrega ao próximo. Ele se esvazia pelos outros, ou instrumentaliza o cargo para si e para os seus — a família, os amigos, o grupo? Serve-se do poder, ou serve com ele? O vício a detectar é a captura do público pelo privado: o nepotismo, a vaidade, o Estado tratado como propriedade.
Como usar — e como não usar
Uma advertência sobre o uso deste instrumento. Ele não é uma calculadora: não se trata de dar notas e somar pontos, como se o melhor candidato fosse o de maior média. As perguntas têm pesos diferentes, e algumas — a dos valores, a da verdade, a do fim — são mais decisivas do que outras, porque um homem competente que luta pelo mal é pior, e não melhor, do que um incompetente que luta pelo bem. Use as nove como olhares que se completam, não como itens de uma lista a preencher. E use-as com misericórdia para com a imperfeição real: não existe o candidato perfeito, e recusar todo voto à espera do santo impecável é uma forma requintada da fuga que já condenámos. Trata-se de discernir, entre pessoas reais e falíveis, quem mais se aproxima do servo e menos do senhor — e de emprestar a esse a nossa parte de poder.
Repare, por fim, que estas mesmas nove perguntas são um exame de consciência para quem pensa em servir. Antes de as fazer aos outros, faça-as a si: o meu fim é servir ou mandar? A minha vida corresponde ao que professo? Estou disposto a perder? É por essa passagem — do julgar ao preparar-se — que a via continua.
O que fazer
- Aplique as nove perguntas a quem pede o seu voto, dando mais peso às decisivas: o fim, os valores e a verdade valem mais do que o carisma ou a simpatia.
- Não espere o candidato perfeito. Discirna, entre pessoas reais e falíveis, quem mais se aproxima do servo e menos do senhor — recusar todo voto à espera do impecável é a velha fuga com outra roupa.
- Volte as mesmas perguntas contra si mesmo antes de as fazer aos outros. Elas são, ao mesmo tempo, um crivo para escolher e um espelho para quem sente o chamado a servir.
Para aprofundar
- Josef Pieper, As Virtudes Fundamentais — o retrato do caráter reto que estas perguntas procuram, virtude por virtude
- Platão, A República, livro VI — quem deve e quem não deve governar: o critério da alma ordenada ao bem