Toda autoridade vem de Deus
Toda autoridade vem de Deus
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«Não há autoridade que não venha de Deus», escreve São Paulo aos Romanos (Rm 13,1). É uma das frases mais mal lidas da Escritura. Muitos ouvem nela um carimbo divino sobre o poderoso, uma ordem de obediência cega: quem manda, manda em nome de Deus, e pronto. Mas o sentido é quase o oposto, e é dos mais libertadores que há. Porque se a autoridade vem de Deus, então ela não pertence a quem a exerce. É recebida, não gerada. É confiada, não conquistada. E o que se recebe em confiança, presta-se contas.
Depósito, não propriedade
Repare na diferença entre possuir e administrar. O dono de uma coisa faz dela o que quer; o administrador responde por ela diante de outro. Dizer que a autoridade vem de Deus é dizer que todo governante é administrador, nunca dono. O poder é-lhe emprestado para um fim — o bem daqueles que lhe foram confiados — e sobre esse fim ele será cobrado. Longe de divinizar o poderoso, a frase de Paulo põe sobre ele o maior dos pesos: acima dele há Alguém, e diante desse Alguém ele haverá de responder por cada uso que fez do que não era seu.
Foi exatamente isto que deu aos mártires cristãos a coragem de dizer não ao imperador. Se toda autoridade viesse do próprio imperador, seria absoluta, e resistir-lhe seria loucura. Mas porque vinha de Deus, tinha um limite: o imperador que ordenava o que Deus proíbe excedia o depósito, e aí a obediência cessava. «É preciso obedecer a Deus antes que aos homens», responderam os Apóstolos (At 5,29). A origem divina da autoridade não é a corrente que prende o súbdito; é a corrente que prende o senhor.
O poder sob juízo
Daqui nasce toda a tradição cristã sobre os limites do poder, que os grandes doutores da lei — Belarmino, os mestres de Salamanca — desenvolveram com rigor. A autoridade civil é legítima e deve ser respeitada; a desordem e a anarquia são males reais, e não é qualquer descontentamento que justifica a revolta. Mas essa mesma autoridade está sob juízo — o juízo da lei natural e da lei de Deus, que ela não fez e não pode desfazer. Há uma verdade moral anterior a todo governante, e nenhum decreto a revoga. Um poder que se declara fonte última do bem e do mal, que se põe acima de toda medida, já não vem de Deus: usurpa o lugar de Deus. E a esse, precisamente, é que não se deve obediência.
O que isto pede de quem manda — e de quem obedece
Para quem exerce autoridade, a lição é sóbria e terrível: você não é dono de nada do que administra. O cargo, o mandato, a força que a lei lhe põe na mão — tudo isso é depósito, e um dia haverá de devolvê-lo com contas. Governar na consciência dessa devolução é o começo de todo bom governo; esquecê-la é o começo de toda tirania.
E para quem obedece, a lição é igualmente sóbria: o respeito pela autoridade legítima é um dever real, mas nunca é cheque em branco. Obedece-se ao poder no que ele tem de Deus — a ordem, a justiça, o bem comum. Onde ele contradiz abertamente a lei de Deus, o mesmo princípio que manda respeitá-lo manda resistir-lhe. Não são dois princípios: é o mesmo, visto dos dois lados.
O que fazer
- Se exerce qualquer autoridade — num cargo, numa empresa, numa família —, trate-a como depósito, não como posse. Pergunte-se de tempos a tempos: por isto que me foi confiado, que contas darei?
- Respeite a autoridade legítima sem a divinizar. Obedecer ao poder no que ele serve ao bem, e recusá-lo no que ele exige contra a consciência, é o mesmo princípio, não a sua traição.
- Desconfie de todo poder que se apresente como fonte última do bem e do mal, sem medida acima de si. Um poder sem juízo acima dele não vem de Deus — ocupa-lhe o lugar.
Para aprofundar
- São Roberto Belarmino, De Laicis (Do poder civil) — a autoridade que vem de Deus através da comunidade, e por isso não é absoluta
- Catecismo da Igreja Católica, §§1897-1904 — o fundamento e os limites da autoridade na sociedade