Reger é servir
Reger é servir
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Na véspera de morrer, o Mestre ajoelhou-se diante dos discípulos e lavou-lhes os pés — o gesto do escravo, o mais baixo da casa. E disse: «Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés; também vós deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13,14). Poucos gestos na história disseram tanto sobre o poder. Porque aquele que, se alguém tinha, tinha autoridade — «o Senhor e o Mestre» — mostrou em que consiste exercê-la: em servir, a ponto de tomar o lugar do último.
A inversão que muda tudo
Cristo foi explícito, e o contraste que traçou é o eixo de toda esta via. «Sabeis que os que são tidos como chefes das nações as dominam, e os seus grandes exercem poder sobre elas. Mas entre vós não será assim: quem quiser tornar-se grande, seja o vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos» (Mc 10,42-44). Repare na força da frase: entre vós não será assim. O modo pagão de mandar — o poder como direito de ser servido, como degrau para cima — é nomeado e recusado. No seu lugar, uma inversão: o alto mede-se pelo baixo, a grandeza pelo serviço, a autoridade pela disposição de se pôr por último.
Não se trata de um ornamento devoto que se acrescenta à política «de verdade». Trata-se da política de verdade. O título mais antigo e mais belo que os Papas tomaram para si diz isto numa fórmula: servus servorum Dei, servo dos servos de Deus. Quem está no ponto mais alto nomeia-se pelo serviço mais baixo. Onde essa inversão se apaga, e o cargo volta a ser degrau e privilégio, a autoridade pode continuar a existir de fato, mas perdeu a alma; virou de novo o «domínio das nações» que Cristo pôs de lado.
O sinal que distingue o pastor do lobo
Esta é a pedra de toque mais segura para distinguir o verdadeiro governante do falso — e vale tanto para pesar os outros quanto para nos pesarmos a nós. O falso busca o poder para si: o cargo é o prémio, e o povo, o meio. O verdadeiro busca o poder para o outro: o cargo é o peso, e o povo, o fim. À superfície podem parecer-se; ambos discursam sobre servir. Mas basta apertar a pergunta — o que este homem largaria, se tivesse de escolher entre continuar no poder e fazer o bem? — para que a diferença apareça. O servo largaria o poder para servir; o senhor sacrificaria o serviço para reinar.
O Bom Pastor deu o critério e deu o exemplo no mesmo fôlego: «dá a vida pelas ovelhas», ao contrário do mercenário, que foge quando vem o lobo, «porque as ovelhas não lhe pertencem» (Jo 10,11-13). É a mesma coisa dita de outra forma: quem serve está disposto a perder; quem se serve, a fazer perder os outros. Toda a seção sobre as virtudes — a coragem que não se corrompe, a disposição de perder tudo — nasce daqui, deste feixe de luz lançado sobre o poder pela toalha e pela bacia.
Não é fraqueza
Convém desfazer um mal-entendido. Servir não é ser frouxo, nem deixar-se pisar, nem abdicar de decidir. O que lava os pés é o mesmo que expulsa os vendilhões do templo; a mansidão do serviço convive com a firmeza da justiça, e uma sem a outra adoece. Servir o bem comum exige, muitas vezes, contrariar interesses poderosos, dizer não a quem tem força para se vingar, carregar a impopularidade de uma decisão justa. O serviço de que falamos não é a subserviência ao mais forte; é a entrega ao bem daqueles que nos foram confiados, custe o que custar a quem serve. É a forma mais alta de força, não a ausência dela.
O que fazer
- Diante de quem exerce ou disputa o poder — inclusive você mesmo —, aplique a pergunta que separa o pastor do mercenário: entre continuar no cargo e fazer o bem, o que largaria?
- Não confunda serviço com fraqueza. Servir o bem comum obriga a contrariar interesses e a suportar impopularidade; a mansidão que não sabe ser firme não é serviço, é omissão.
- Se tem qualquer autoridade, procure um gesto concreto de «lavar os pés» — a tarefa humilde que o cargo o dispensaria de fazer. É aí, e não no discurso, que se prova de que lado da inversão você está.
Para aprofundar
- Romano Guardini, O Poder — a responsabilidade como a única forma humana de exercer o poder
- Catecismo da Igreja Católica, §§1897-1917 — a autoridade a serviço do bem comum