A correspondência entre o dizer e o fazer
A correspondência entre o dizer e o fazer
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De todos os sinais que se podem ler numa pessoa pública, o primeiro e o mais revelador é a distância entre o que ela diz e o que ela faz. É um sinal simples, ao alcance de qualquer cidadão atento, e quase infalível. Porque as palavras podem ser escolhidas, ensaiadas, vendidas; os atos, ao longo do tempo, escapam ao controlo e denunciam o que a pessoa realmente é. Onde o discurso vai para um lado e a vida para outro, há uma fenda — e é nessa fenda que mora a mentira. Ler alguém é, antes de tudo, medir essa distância.
A vida ilibada é a vida inteira
Chama-se «ilibada» à vida sem mácula, e a expressão pode enganar. Não quer dizer a vida sem defeito nenhum — essa não existe, e quem a alega está a mentir na primeira frase. Quer dizer a vida inteira, de uma só peça: aquela em que o homem público e o homem privado são o mesmo homem, em que o que se professa em praça se pratica em casa, em que não há um rosto para as câmaras e outro para os bastidores. A palavra latina integritas, de onde vem «integridade», diz exatamente isso: inteireza, o oposto do partido em dois. O íntegro não é o impecável; é o inteiro — aquele em quem o dizer e o fazer coincidem, e por isso se pode confiar.
O contrário da integridade é a hipocrisia, e o Evangelho não teve palavras mais duras para ninguém do que para o hipócrita — o «sepulcro caiado», belo por fora e podre por dentro (Mt 23,27). Note-se por quê: não porque o hipócrita seja o maior dos pecadores, mas porque é o mais mentiroso, o que corrompe a própria moeda da confiança. Um homem que faz o mal e o reconhece ainda vive na verdade sobre si; o hipócrita faz o mal e veste-se de bem, e assim envenena a possibilidade mesma de as pessoas se fiarem umas nas outras. Na vida pública, onde tudo repousa na confiança, a hipocrisia é a corrupção da raiz.
Viver na verdade
Contra essa mentira, dois homens que a conheceram por dentro — na sua forma mais total, a do Estado totalitário — deixaram a lição mais limpa que há. Aleksandr Soljenítsin, saído do Gulag, escreveu no dia em que foi preso um pequeno testamento de uma frase: não viver da mentira. Não pedia heroísmos impossíveis; pedia o mínimo e o essencial — que o homem, mesmo sem forças para derrubar a mentira do regime, ao menos não a repita com a própria boca, não a assine, não a aplauda. Que não coopere com o falso. Porque a mentira pública, notou ele, não se sustenta pela força apenas: sustenta-se pela participação diária de milhões que a repetem por medo ou por comodidade. Deixar de a repetir — só isso — já a mina.
Václav Havel, do outro lado da mesma cortina, disse-o pela face positiva: viver na verdade. Contou a parábola do merceeiro que põe na vitrine o cartaz oficial em que não crê, só para ser deixado em paz — e mostrou como esse pequeno gesto de conformidade, multiplicado por todos, é o cimento invisível da mentira do sistema. O «poder dos sem-poder» começa quando um homem qualquer decide parar de mentir com os gestos: tirar o cartaz, dizer o que pensa, viver como se a verdade importasse. Não é uma revolução armada; é uma revolução da coerência. E é ao alcance de qualquer um, o que a torna tão temida.
O que isto pede de quem lê — e de quem serve
Para o cidadão que lê, a lição é uma régua de mão: meça sempre a distância entre o discurso e a vida. Não se contente com o que o candidato diz querer; olhe o que ele fez quando dizer a verdade lhe custava, quando o certo era impopular, quando ninguém o obrigava a ser reto. A coerência ao longo do tempo é o dado mais difícil de falsificar, e por isso o mais confiável.
E para quem serve, ou pretende servir, a exigência é ainda mais simples e mais dura: ser inteiro. Não prometer o que não se vive, não professar o que não se pratica, não construir uma imagem que a vida desminta. A vida ilibada não se conquista com assessoria de comunicação; conquista-se vivendo, dia após dia, de uma só peça. É o mais barato dos programas e o mais caro dos compromissos — porque não custa dinheiro nenhum, e custa a renúncia a toda mentira confortável.
O que fazer
- Ao pesar alguém, meça a distância entre o que diz e o que faz — sobretudo o que fez quando a verdade lhe custava e ninguém o obrigava. Essa distância é o dado mais honesto que você tem.
- Não confunda vida ilibada com vida impecável. Procure a inteireza, não a perfeição: o homem em quem o público e o privado são o mesmo homem, sem um rosto para cada plateia.
- Comece por si pela regra de Soljenítsin: não viver da mentira. Ainda que não possa mudar o que é falso à sua volta, recuse-se a repeti-lo, assiná-lo ou aplaudi-lo. Só isso já o desarma.
Para aprofundar
- Aleksandr Soljenítsin, Não viver da mentira — o testamento de uma frase escrito no dia da prisão
- Václav Havel, O poder dos sem-poder — o merceeiro, o cartaz e a força escondida de «viver na verdade»