As duas cidades
As duas cidades
⏱ 6 min de leitura
Chegamos ao fim, e o fim pede que se levante o olhar. Percorremos as virtudes, o discernimento, a arte de falar e de fazer, o modo de escolher e de servir. Tudo isso se passa dentro da cidade dos homens — a cidade real, com as suas eleições, as suas leis, as suas urgências. Mas há uma verdade que, se esquecida, deforma tudo o que dissemos, e que só agora, no fecho, pode ser dita inteira: esta cidade não é a definitiva. E é precisamente por não ser a definitiva que a podemos servir bem — sem a idolatrar e sem a desprezar, com a liberdade de quem sabe onde repousa, no fim, o seu coração.
O amor que funda cada cidade
Santo Agostinho, olhando o desmoronar do império romano à sua volta, escreveu a maior obra de filosofia política da tradição cristã — A Cidade de Deus — e nela viu a história inteira como o entrelaçar de duas cidades. Não duas nações, nem dois partidos: duas cidades místicas, misturadas neste mundo até ao fim, e distintas por aquilo que cada uma, no fundo, ama. «Dois amores fizeram duas cidades», escreveu numa frase que atravessou quinze séculos: «o amor de si até ao desprezo de Deus fez a cidade terrena; o amor de Deus até ao desprezo de si fez a cidade celeste». Repare que a fronteira entre elas não passa entre crentes e descrentes, nem entre governantes e governados: passa dentro de cada coração, pela direção do seu amor. Onde o eu se põe no centro, ali cresce a cidade terrena, mesmo entre pios; onde o amor se esquece de si e se volta para Deus e para o próximo, ali cresce a cidade de Deus, mesmo no meio da política.
E aqui todas as folhas desta via se recolhem numa só luz. Que foi tudo o que dissemos, senão o combate entre esses dois amores no terreno do poder? O senhor que busca o cargo para si é a cidade terrena feita política; o servo que se esvazia pelo próximo é a cidade de Deus feita política. Reger é servir, imitar Aquele que É, dar-se até à disposição da morte — tudo isso é o «amor de Deus até ao desprezo de si» descido à praça pública. E a libido do poder, a mentira, a corrupção, a captura do bem comum pelo interesse próprio — tudo isso é o «amor de si até ao desprezo de Deus» sentado nos tronos. A política é, no fundo, um dos grandes campos onde as duas cidades se disputam o mundo.
Construir bem o que não é definitivo
Poder-se-ia tirar daqui uma conclusão errada: se a cidade dos homens não é a definitiva, para que gastar-se por ela? É a tentação de sempre — a fuga espiritualizada, o desprezo do temporal em nome do eterno. Agostinho não a autoriza, e o Evangelho menos ainda. Porque o mesmo Deus que nos chama à cidade eterna nos manda amar o próximo nesta, com fome, com sede, com necessidade de justiça e de paz aqui e agora. Não construímos a Jerusalém definitiva — ela é dom, e desce do alto —, mas somos chamados a construir bem a cidade terrena, como um ato de amor concreto pelos que nela vivem connosco. Justamente por sabermos que ela é penúltima, e não última, podemos servi-la com toda a força e sem desespero: com toda a força, porque o próximo real está nela; sem desespero, porque não pomos nela a esperança que só o Céu pode saciar. O cristão é o melhor cidadão terreno precisamente por não ser apenas cidadão terreno — trabalha pela cidade dos homens com as mãos, e não afunda com ela o coração.
Esta é a liberdade última do servo da cidade, e o coroamento de toda esta via. Quem espera da política a salvação torna-se ou fanático (quando crê tê-la encontrado) ou cínico (quando descobre que não). Quem sabe que a salvação vem de outro lugar pode servir a política com serenidade: dar-se inteiro à obra do bem comum e, ao mesmo tempo, não desabar quando ela falha, porque a sua esperança não estava ali. É o desapego levado à sua raiz mais funda — não já o desapego do cargo, mas o da própria cidade terrena, amada com todas as forças e entregue, no fim, a Deus.
O coração inquieto e o Rei crucificado
E assim esta via desemboca onde desembocam todas as vias desta Biblioteca — no coração inquieto de que falou o próprio Agostinho na frase mais célebre de todas: «fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti». Nenhuma cidade dos homens, por mais justa, saciará esse coração; e é bom que assim seja, para que nenhuma se torne ídolo. A cidade perfeita não é uma meta política a alcançar por reforma nenhuma: é uma dádiva a receber, no fim, das mãos de Deus. Enquanto ela não vem, servimos a que temos — reta, paciente, humildemente —, sabendo que o pouco de justiça que conseguirmos plantar aqui é já semente daquela cidade que não passará.
Fica, para o fim, a imagem que resume tudo o que esta via quis dizer sobre o poder. O Rei do universo reinou de uma cruz. Aquele que É, a plenitude do ser, exerceu a Sua realeza não de um trono, mas de um madeiro, com a coroa de espinhos, dando a vida pelos que reinava. É esse o modelo, impossível e verdadeiro, de todo governo que se queira à imagem d’Aquele que É: não o poder que se serve dos homens, mas o amor que se dá por eles até ao fim. Servir a cidade, no sentido mais alto, é aprender — devagar, imperfeitamente, uma decisão de cada vez — a reinar assim.
O que fazer
- Sirva a cidade dos homens com todas as forças e sem desespero: com força, porque o próximo real está nela; sem desespero, porque a sua esperança última não repousa nela, mas em Deus.
- Não espere da política a salvação — para não se tornar fanático quando crer tê-la, nem cínico quando descobrir que não. Quem sabe de onde vem a salvação é o único que pode servir a cidade em paz.
- Tome por medida do poder o Rei que reinou de uma cruz. Diante de cada parcela de autoridade que a vida lhe der — grande ou mínima —, pergunte se a exerce para se servir dos outros ou para se dar por eles. Aí está, inteira, a via do bem comum.
Para aprofundar
- Santo Agostinho, A Cidade de Deus — as duas cidades fundadas por dois amores, entrelaçadas na história até ao fim
- Santo Agostinho, Confissões, livro I — «fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti»