O voto como ato moral
O voto como ato moral
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Percorremos o que serve o poder, que virtudes ele exige e como ler a realidade da cidade. Falta a parte mais prática: escolher e, quem sabe, preparar-se para servir. E o primeiro ato de escolha do cidadão comum tem um nome modesto e um peso enorme — o voto. Costuma-se tratá-lo como uma preferência, quase um gosto: cada um vota em quem prefere, como quem escolhe um time. Mas o voto não é uma preferência de gosto; é um ato moral. Por ele, entregamos a alguém uma parcela do poder sobre a vida de todos — sobre as leis, sobre a justiça, sobre a paz, sobre os mais frágeis. E de tudo o que esse alguém fizer com o poder que ajudámos a dar-lhe, temos também a nossa parte de responsabilidade. Votamos, e respondemos pelo que ajudámos a empoderar.
Se o voto é ato moral, então exige o que todo ato moral exige: uma consciência formada. Não basta a intenção sincera — pode-se querer o bem e escolher mal, por ignorância culpável, por preguiça de examinar, por se deixar levar pela emoção do momento ou pela propaganda. Formar a consciência é o trabalho de toda esta via: aprender a ver o real, conhecer as virtudes que um governante deve ter, saber ler a coerência, a memória dos fatos, a mentira. Quem chega ao voto sem esse trabalho vota às cegas, e um voto às cegas é um poder entregue ao acaso ou à sedução. A Igreja fala, por isso, do voto como um dever que se cumpre com a consciência — não a consciência como sentimento, mas como o juízo reto sobre o bem, formado na verdade.
E este é o lugar de dizer, com clareza e sem medo, algo que a nossa época custa a ouvir: a democracia não é uma máquina de fabricar verdade. O facto de uma maioria querer algo não torna esse algo justo. João Paulo II foi direto ao ponto: «uma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado». O voto da maioria decide quem governa e como se organizam muitas coisas legítimas em que há espaço para escolhas diversas; mas não decide o que é o bem e o que é o mal, que são anteriores a todo voto. Há uma verdade moral que nenhuma urna revoga — e um regime que se julga dono dela, que decide por maioria quem tem direito a viver e quem não tem, já traiu a própria democracia que invoca, ainda que guarde as suas formas.
Os bens que não se negociam
Daí que existam, no juízo de quem vota, alguns bens que não entram na mesa da negociação política — não por intransigência, mas porque são a condição de todos os outros. A Congregação para a Doutrina da Fé chamou-lhes, na sua Nota sobre a participação dos católicos na vida política, os pontos «não negociáveis»: o respeito pela vida humana desde a concepção até à morte natural; a família fundada no matrimónio entre homem e mulher; a liberdade de os pais educarem os filhos; a liberdade religiosa; a defesa dos mais frágeis. Não são bandeiras de um grupo contra outro; são as vigas que sustentam a casa comum, e sobre elas nenhuma maioria tem autoridade, porque quem as derruba derruba o próprio fundamento de qualquer justiça.
Convém dizer isto do modo certo, que é o modo de toda esta via: com firmeza na verdade e caridade com as pessoas. Não se trata de dividir o mundo entre bons e maus, nem de transformar o voto numa cruzada que despreza quem pensa diferente. Trata-se de reconhecer que há coisas sobre as quais não é possível ceder sem trair o próprio bem comum — e de o afirmar com serenidade, com respeito, atraindo pela verdade e não vencendo pela força, disposto a dar razões a quem as pede e a carregar, se preciso, a impopularidade de as sustentar. A verdade não precisa de gritar nem de odiar; precisa de ser dita inteira, com amor por quem ainda não a vê.
O que esta seção percorre
- 5.1 · Como pesar um candidato — as perguntas concretas com que se examina quem pede o nosso voto.
- 5.2 · Preparar-se para servir — a formação de quem sente o chamado a entrar na vida pública, e não a fugir dela.
- 5.3 · São Tomás More — o patrono dos governantes: o mártir que não mentiu para salvar a vida.
- 5.4 · Schuman e os que construíram — estadistas que fizeram o bem concreto: da Antiguidade à Europa reerguida.
- 5.5 · As duas cidades — o fecho: construir bem a cidade dos homens sabendo que ela não é a definitiva.
Comece pelo ato concreto que se aproxima: como pesar um candidato.
Para aprofundar