A língua do outro
A língua do outro
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Comunicar não é dizer o que se sabe; é fazer com que o outro entenda. A diferença parece pequena e é enorme. Quem apenas «diz o que sabe» descarrega a sua verdade na forma que lhe é cómoda — o seu vocabulário, os seus pressupostos, a sua bagagem — e sente-se quite quando terminou de falar. Mas se o ouvinte não recebeu, não houve comunicação; houve monólogo. Comunicar de verdade exige o trabalho de sair de si e ir ao encontro do outro: falar na sua língua, a partir do seu mundo, começando de onde ele está e não de onde eu estou. É um ato de humildade e de caridade antes de ser uma técnica.
O mestre das parábolas
Não há mestre desta arte como Cristo, e vale olhar como Ele ensinava. Tinha as verdades mais altas que já se disseram — sobre Deus, sobre o Reino, sobre o destino do homem — e ensinava-as com sementes, redes de pesca, moedas perdidas, filhos que voltam para casa, patrões que contratam trabalhadores. As parábolas são isto: verdades infinitas traduzidas na língua concreta de camponeses e pescadores, ditas com as imagens do quotidiano de quem ouvia. Ele não rebaixava a verdade ao nível do ouvinte; erguia o ouvinte até à verdade, tomando-o pela mão a partir do que ele já conhecia. Começava no campo que o lavrador via todos os dias, e levava-o dali ao mistério de Deus. Essa é a pedagogia mais alta que há: encontrar a pessoa no seu terreno e conduzi-la, pelo familiar, até ao que ela ainda não sabia.
O oposto disto tem um nome, e a vida pública está cheia dele: o jargão. A linguagem técnica fechada, as siglas, os termos que só os de dentro entendem, o economês e o juridiquês com que se fala ao povo sem lhe querer, no fundo, falar. O jargão exclui — e muitas vezes exclui de propósito, porque a obscuridade protege quem não quer ser cobrado: o que ninguém entende, ninguém fiscaliza. Falar claro é, por isso, também um ato de honestidade e de respeito democrático: quem tem algo verdadeiro a dizer, e quer de fato servir, procura ser entendido, não admirado.
Nem jargão que exclui, nem desdém que rebaixa
Mas a arte de ir ao encontro do outro tem duas margens, e é fácil cair da segunda ao fugir da primeira. Se o jargão peca por cima — falando acima da cabeça das pessoas —, o desdém peca por baixo: é o erro de quem, para «simplificar», rebaixa o ouvinte, fala-lhe como a uma criança, subestima-lhe a inteligência, troca o argumento pelo slogan e a verdade pela palavra de ordem fácil de engolir. O demagogo é mestre nisto: não respeita o povo o bastante para lhe dizer coisas difíceis; adula-o, diz-lhe o que ele quer ouvir, trata-o como massa a excitar e não como pessoas a esclarecer. Falar na língua do outro não é falar por baixo do outro. É supor que ele é capaz de entender a verdade se lhe for dita com clareza — e é, quase sempre.
John Henry Newman, que pensou como poucos o modo como o homem real chega às suas convicções, insistia que não se convence uma pessoa como se demonstra um teorema. O homem concreto não é uma inteligência abstrata que só processa argumentos; adere à verdade com o ser inteiro — a razão, sim, mas também a experiência, a imaginação, os afetos, a vida vivida. Falar à pessoa inteira, e não só ao seu intelecto, é a arte de quem quer de fato persuadir, e não apenas provar. Por isso a boa comunicação política não despreza a história bem contada, o exemplo concreto, a imagem que ilumina — não como truques para dispensar a verdade, mas como as pontes por onde a verdade chega a um ser humano de carne e osso.
O que fazer
- Antes de falar, pergunte-se: de onde parte quem me ouve? Comece do mundo do outro — das suas palavras, das suas imagens, do que ele já conhece — e conduza-o dali ao que quer dizer, como quem ensina por parábolas.
- Fuja do jargão como de uma forma de ocultação. Se só os de dentro entendem, provavelmente não quer de fato ser cobrado. Quem serve procura ser entendido; quem se esconde, ser admirado.
- Não caia no erro oposto: não rebaixe o ouvinte para «simplificar». Suponha-o capaz da verdade dita com clareza. Falar na língua do outro é respeitá-lo, não subestimá-lo.
Para aprofundar
- São John Henry Newman, Gramática do Assentimento — como o homem real adere à verdade com o ser inteiro, e não só pela demonstração
- Evangelho segundo São Mateus, 13 — as parábolas do Reino: a verdade altíssima dita na língua concreta de quem ouve