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Reconhecer o mal

Reconhecer o mal

6 min de leitura

Fechamos a seção do discernimento com a sua leitura mais difícil: a do mal. Difícil por duas razões opostas. Primeiro, porque o mal real quase nunca se anuncia como mal — disfarça-se de bem, de necessidade, de ordem, e engana até os bons. Segundo, porque o esforço de o reconhecer facilmente descarrila para o excesso contrário: passa-se a ver mal em toda parte, inimigos em cada esquina, conspiração em cada acaso. Entre a ingenuidade que nada suspeita e a paranoia que tudo suspeita corre um caminho estreito, e é nele que está a lucidez.

Nem cego, nem paranoico

A ingenuidade é o primeiro perigo, e o mais simpático. É a recusa de admitir que o mal existe, que há de fato quem queira o poder para fazer o mal, que nem todo conflito é mal-entendido a resolver com diálogo. O ingénuo é desarmado por princípio: tão certo de que todos são basicamente bons que se entrega ao primeiro que o engane. Em política, essa cegueira não é inocente — é irresponsável, porque põe o bem comum nas mãos de quem soube parecer bom. Há mal no mundo, e não o ver é uma forma de o servir.

Mas o excesso contrário não é menos ruinoso, e é mais difícil de reconhecer em si mesmo, porque se sente como lucidez. É a paranoia: o hábito de explicar tudo pela má intenção alheia, de ver conspiração em cada dificuldade, inimigo em cada divergente. Aqui a via reencontra o homem que só tem a razão: o sistema paranoico é perfeito e fechado, explica tudo — se você o contradiz, é porque está no complô; se as coisas correm mal, é sabotagem; se correm bem, é armadilha. Nada o refuta, e é essa infalibilidade que denuncia a doença. O paranoico político é tão cego quanto o ingénuo, só que do olho contrário: um não vê o mal que existe, o outro inventa o que não existe. E o segundo costuma ser mais destrutivo, porque fabrica inimigos, justifica a dureza contra eles e envenena a confiança sem a qual nenhuma cidade se sustenta.

A régua, entre os dois, volta a ser a dos frutos e a dos fatos: suspeitar o que os fatos autorizam a suspeitar, nem mais nem menos. Não presumir a boa-fé contra a evidência, nem presumir a má-fé sem ela. É um equilíbrio que exige a virtude inteira — prudência para ver, justiça para não acusar em falso, temperança para não se deixar arrastar pela indignação.

A banalidade do mal

E há uma descoberta que muda a maneira de procurar o mal, e que devemos a Hannah Arendt. Ao observar o julgamento de um dos organizadores do extermínio nazi, ela esperava encontrar um monstro — e encontrou um funcionário. Um homem medíocre, aplicado, preocupado com a carreira, que cumpria ordens, preenchia formulários e organizava transportes de gente para a morte sem ódio especial e sem pensar no que fazia. Chamou a isto a banalidade do mal: a constatação, perturbadora, de que os maiores males não precisam de grandes vilões: bastam-lhes homens comuns que deixam de pensar, que trocam a consciência pela obediência, que fazem a sua parte na engrenagem sem perguntar para onde ela vai. O mal, na sua forma mais eficaz, não tem cara de monstro; tem cara de normalidade, de zelo profissional, de «eu só cumpria o meu dever».

Esta é a lição mais útil para reconhecer o mal na cidade. Não o procure apenas nos vilões evidentes; procure-o na renúncia a pensar — no funcionário que executa sem perguntar, no cidadão que repete sem examinar, na engrenagem que ninguém, individualmente, quer, mas que todos, juntos, alimentam. E procure-o em si: o mal banal instala-se onde se deixa de fazer a pergunta simples «o que estou eu, de fato, a servir com isto?». A consciência que continua a perguntar é a única defesa contra o mal que se veste de dever. Era o «coração que ouve» pedido por Salomão para «discernir o bem do mal» — a mesma súplica que Bento XVI recordou aos legisladores de hoje.

O que fazer

  • Recuse os dois excessos: nem presumir a boa-fé contra a evidência (ingenuidade), nem a má-fé sem ela (paranoia). Suspeite o que os fatos autorizam a suspeitar — nem mais, nem menos.
  • Desconfie de você mesmo quando um sistema de suspeita explicar tudo. A infalibilidade não é sinal de lucidez; é o sinal do círculo paranoico, que fabrica os inimigos de que precisa.
  • Procure o mal menos no monstro e mais na renúncia a pensar — a sua inclusive. Diante de cada ordem, hábito ou consenso que executa, faça a pergunta que o desarma: «o que estou eu, de fato, a servir com isto?».

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