O bem comum não é a soma dos interesses
O bem comum não é a soma dos interesses
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Esta folha dá nome à via inteira, e por isso convém acertá-la com cuidado, porque o «bem comum» é uma daquelas expressões que todos usam e quase ninguém define — o que a torna fácil de sequestrar. Duas deformações opostas rondam-na, e é preciso afastar as duas antes de dizer o que ela é.
Nem o interesse de um, nem a soma de todos
A primeira deformação é grosseira: chamar «bem comum» ao interesse de um grupo — o meu partido, a minha classe, os meus — apresentado como se fosse o bem de todos. É a mais velha das fraudes políticas, e reconhece-se por um sinal simples: o suposto bem comum sempre coincide, por milagre, com a vantagem de quem o proclama. Onde o bem de todos dá sempre no bolso dos mesmos, não há bem comum; há interesse privado disfarçado.
A segunda deformação é mais subtil, e engana melhor: reduzir o bem comum à soma dos interesses individuais — o maior bem para o maior número, a média dos desejos, o que a maioria prefere. Parece justo e democrático, mas esconde uma armadilha. Se o bem comum é apenas soma, então a minoria pode ser sacrificada sempre que a conta feche; e nada, em princípio, protege o inocente que estorva a felicidade dos muitos. Foi por essa porta — a do «bem da maioria» erguido contra o direito de alguns — que passaram as piores injustiças modernas. O bem comum verdadeiro não é uma conta em que uns entram como perda para que outros ganhem.
O que ele é
O bem comum, na sua definição clássica, é «o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada um dos seus membros, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» — assim o formulou o Concílio Vaticano II. Preste atenção à forma: não é uma coisa que se reparte em fatias, de modo que a fatia de um seja a que falta a outro. É uma condição de que todos participam ao mesmo tempo sem que ninguém a diminua — como a paz numa cidade, a justiça nos seus tribunais, a verdade que circula, a confiança entre vizinhos. Dessas coisas todos usufruem juntos, e quanto mais um usufrui, mais há para os outros, não menos.
E há um traço que o distingue de qualquer coletivismo: no bem comum, a pessoa nunca é meio. Não se sacrifica o indivíduo ao todo, porque o todo existe para as pessoas, e não as pessoas para o todo. O bem comum é comum precisamente por ser bem de cada um — o contrário do formigueiro, onde o inseto é descartável em nome da colmeia. A cidade justa é aquela em que o bem de todos e a dignidade de cada um não se opõem, mas se exigem mutuamente.
Dois princípios que o guardam
Duas ideias, hoje clássicas na Doutrina Social da Igreja, guardam o bem comum das suas deformações — e a via do Trabalho as desenvolve pelo lado da economia; aqui bastam nomeadas. A solidariedade lembra que somos responsáveis uns pelos outros, que o bem de cada um está atado ao bem de todos, e que ninguém se salva sozinho na cidade. A subsidiariedade lembra o reverso: que o bem comum não se faz esmagando as comunidades menores — a família, a vizinhança, a associação —, mas sustentando-as, para que cada uma faça o que lhe cabe sem ser sufocada por cima. Uma sem a outra desequilibra: a solidariedade sem subsidiariedade incha o Estado e apaga a pessoa; a subsidiariedade sem solidariedade abandona o fraco à própria sorte. Juntas, desenham uma cidade em que o alto serve o baixo e o baixo não é engolido pelo alto.
O que fazer
- Diante de toda proposta que invoque o «bem comum», faça o teste simples: o bem alegado coincide, por acaso, com a vantagem de quem o proclama? Se coincide sempre, provavelmente é interesse privado com nome emprestado.
- Desconfie do cálculo que sacrifica alguns ao bem-estar dos muitos. O bem comum verdadeiro nunca trata uma pessoa como perda aceitável na conta do todo.
- Pese as políticas pelos dois princípios ao mesmo tempo: elas sustentam quem precisa (solidariedade) e respeitam o que as comunidades menores fazem melhor (subsidiariedade)? Faltar a um dos dois já deforma o bem comum.
Para aprofundar