São Tomás More, governante e mártir
São Tomás More, governante e mártir
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Todas as virtudes de que esta via falou existiram, juntas, num homem — e por isso a Igreja o deu como padroeiro a todos os que governam. Em 31 de outubro do ano 2000, João Paulo II proclamou São Tomás More patrono dos governantes e dos políticos. Não escolheu um teórico da política, nem um santo afastado do mundo: escolheu um homem que esteve no topo do poder de um reino e que, no ponto exato em que o poder exigiu dele a mentira, preferiu o cadafalso. A vida de More é esta via inteira feita carne, e por isso a fecha entre as testemunhas.
O servidor competente
Convém começar por onde quase sempre se esquece: antes de mártir, More foi um bom servidor público, no sentido mais concreto. Jurista de renome, homem de vasta cultura, amigo dos maiores sábios do seu tempo, subiu por mérito os degraus do serviço à coroa inglesa até ao mais alto cargo civil, o de Lorde Chanceler. E exerceu-o bem: era conhecido pela rapidez com que despachava as causas, pela integridade com que julgava, pela recusa dos subornos que corriam soltos à sua volta. Num tempo em que o cargo era passaporte para o enriquecimento, More saiu do poder mais pobre do que entrou. Encarnou, portanto, aquilo que a via insistiu em não separar: a retidão e a competência, a virtude e o ofício bem feito. Não foi um justo inútil; foi um justo eficaz, um homem que serviu de verdade enquanto pôde servir sem trair.
A hora da verdade
Veio então a hora que revela os homens. O rei Henrique VIII, para desfazer o próprio casamento contra a lei da Igreja, rompeu com Roma e fez-se cabeça da Igreja em Inglaterra, exigindo que todos o reconhecessem por um juramento. Quase todos juraram — os bispos, os nobres, os pares de More, homens bons que encontraram razões para ceder. Ceder era o caminho fácil, seguro, até respeitável: bastava uma assinatura, e a vida seguia. More não jurou. Não fez alarde, não pregou contra o rei, não conspirou; simplesmente calou-se e recusou-se a jurar o que sabia ser falso. Sabia o preço desse silêncio, e pagou-o: preso na Torre, separado da família que amava — e amava-a ternamente —, teve meses para reconsiderar, com a mulher e a filha a suplicarem-lhe que jurasse como todos e voltasse para casa.
Aqui está tudo o que a via disse sobre a fortaleza. More amava a vida; não buscou o martírio nem o desejou. Mas colocado diante da escolha última — trair a consciência ou perder tudo —, escolheu perder tudo. A sua firmeza não foi a frieza de quem não teme; foi a coragem de quem teme e não cede, o homem vulnerável que enfrenta a perda porque o bem em jogo vale mais do que a própria vida. E a raiz dessa liberdade era exatamente a que descrevemos: quem se dispôs a perder tudo é inteiramente livre, porque já não há com que ameaçá-lo. Nada tinham para lhe oferecer, porque nada ele já não estivesse disposto a perder.
«Bom servo do rei, mas primeiro de Deus»
No cadafalso, em julho de 1535, More resumiu numa frase a lição inteira desta via. Declarou-se «bom servo do rei, mas primeiro de Deus» — the King’s good servant, but God’s first. Repare na ordem, que é tudo. Ele não desprezava o serviço ao rei; fora, ao contrário, um servidor fiel e competente, e não renegava nada disso. Mas havia uma ordem nas suas lealdades: primeiro Deus, depois o rei; primeiro a verdade, depois o poder. O drama de More não foi o de um rebelde contra a autoridade; foi o de um homem que respeitava a autoridade e conhecia o seu limite — o mesmo limite que vimos na raiz desta via: obedece-se ao poder no que ele tem de Deus, e recusa-se-lhe o que ele exige contra Deus. More morreu por essa fronteira. E ao morrer por ela, mostrou onde ela passa, para todos os que viessem depois.
Por isso é ele o padroeiro dos que governam. Não porque tenha sido um político vencedor — foi, aos olhos do mundo, um derrotado, executado por um rei todo-poderoso. Mas porque provou, com a vida e com a morte, que se pode estar no coração do poder e não se vender; que a competência e a santidade não se excluem; que há um ponto em que o bom servo do Estado tem de ser, antes, servo da verdade — e que atravessar esse ponto de cabeça erguida é a glória mais alta a que um homem público pode aspirar. João Paulo II viu nele, com razão, o testemunho de que a política pode ser um caminho de santidade, e não apenas o seu contrário.
O que fazer
- Guarde a ordem de More nas suas próprias lealdades: sirva bem as autoridades legítimas — o trabalho, a lei, a pátria —, mas saiba que há um «primeiro de Deus» acima de todas, e que é nele que está a sua liberdade.
- Reconheça que a competência não dispensa a consciência, nem a consciência dispensa a competência. More foi grande por ser as duas coisas: servidor eficaz enquanto pôde servir sem trair, mártir quando servir exigiu trair.
- Prepare desde já, nas escolhas pequenas, o «não» que um dia pode custar caro. A firmeza de More na Torre não nasceu na Torre: nasceu de uma vida inteira de fidelidade à verdade nas coisas comuns.
Para aprofundar