Temperança: o domínio de si
Temperança: o domínio de si
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As três primeiras virtudes cardeais olham para fora: a prudência vê o mundo, a justiça dá ao próximo, a fortaleza enfrenta a ameaça. A quarta olha para dentro. A temperança é o domínio de si — a virtude que ordena os apetites do homem, para que o desejo sirva e não governe. Parece a mais privada das quatro, quase íntima demais para ter lugar numa via sobre política. É o contrário: sem ela, todas as outras ficam à mercê, porque o homem que não se domina por dentro será dominado por fora. Quem é escravo do próprio apetite é comprável — e um governante comprável é uma cidade em perigo.
Quem não se governa não governa
Há um princípio antigo, quase um provérbio da sabedoria política: só é digno de governar os outros quem sabe governar a si mesmo. A lógica é implacável. O apetite desordenado é uma porta aberta, e por essa porta entra a corrupção. O homem dominado pela ganância venderá decisões pelo dinheiro que não sabe recusar. O dominado pela luxúria será chantageável por aquilo que não soube conter. O dominado pela vaidade fará o que for preciso pelo aplauso, e sacrificará o bem à imagem. O dominado pela ira decidirá no calor do rancor, e não na verdade. Em cada caso, o mesmo mecanismo: um desejo sem freio por dentro torna-se uma alavanca por fora, e alguém sempre a encontrará para puxar. A temperança fecha essas portas. Não por desprezo pelos bens — o prazer, o dinheiro, o reconhecimento não são maus —, mas por pô-los no seu lugar, abaixo do bem que se serve, e não acima.
O apetite mais perigoso: o próprio poder
Há um apetite que a política desperta como nenhum outro, e que é o mais difícil de temperar precisamente porque se disfarça de dever: o apetite do próprio poder. O gosto de mandar, de ser obedecido, de ver o mundo curvar-se à própria vontade — esse embriaga mais do que o vinho, e mente melhor, porque sabe apresentar-se como zelo pelo bem público. O homem que já não distingue «quero servir» de «quero mandar» está perdido sem o saber, e fará muito mal convencido de fazer o bem. A temperança aplicada ao poder tem um nome antigo e exigente: o desapego. É a liberdade interior de quem não precisa do cargo para ser quem é, e por isso pode largá-lo quando o bem o pede. Já a encontraremos, feita gesto, em Cincinato, que voltou ao arado cumprido o dever, e em todo estadista que soube sair a tempo. O apego ao poder é a última e mais teimosa das intemperanças, e a que mais governantes derrubou.
O senhor de si é o único homem livre
Vê-se, então, que a temperança, longe de ser a virtude cinzenta da renúncia, é a raiz de uma liberdade rara. O intemperante não é livre: é arrastado pelo que deseja, empurrado pelo apetite como uma folha ao vento. Cuida que faz o que quer, mas faz o que o desejo quer nele. O temperante, esse, é senhor da própria casa: os seus apetites obedecem-lhe, e por isso ele pode dar-se ao bem sem ser desviado. É a mesma liberdade que a fortaleza dava por outro caminho — a de quem, não estando preso a nada de baixo, está solto para o alto. Um serve o bem porque nada o pode ameaçar; o outro serve o bem porque nada o pode seduzir. Juntas, coragem e temperança fazem o homem incorruptível pelas duas vias por onde a corrupção entra: o medo e o desejo.
E é por isso que a temperança fecha, e não por acaso, a seção sobre a alma do estadista. De nada valeria ver o real, querer a justiça e ter coragem, se por dentro o homem estivesse à venda. O domínio de si é o solo em que as outras três se firmam. Um caráter reto é, no fundo, um homem que se governa — e só esse está pronto para governar os demais.
O que fazer
- Vigie os apetites pequenos, porque é por eles que se compra o homem inteiro. Quem não recusa o mimo fácil, o aplauso vaidoso, o ganho a mais, prepara-se para não recusar o suborno.
- Desconfie, em si e nos outros, do gosto de mandar disfarçado de vontade de servir. Pergunte-se: eu largaria este poder se o bem o pedisse? Quem não larga já é servo do que julga possuir.
- Cultive o desapego como liberdade, não como perda. Ser senhor de si — dos próprios desejos e do próprio poder — é a condição para se dar de verdade ao próximo, sem ser desviado no caminho.
Para aprofundar
- Josef Pieper, A Temperança — o domínio de si como ordem interior que liberta, e não como mera renúncia
- Catecismo da Igreja Católica, §1809 — a temperança, que modera a atração dos prazeres e assegura o domínio da vontade sobre os instintos