As duas cegueiras: o cínico e o utópico
As duas cegueiras: o cínico e o utópico
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Se a fuga do honesto é o primeiro perigo, os dois seguintes são as maneiras opostas de ficar — e errar. Chame-lhes as duas cegueiras da política. Uma é a do cínico, que se julga realista; a outra é a do utópico, que se julga idealista. À primeira vista são contrárias, e são. Mas têm a mesma raiz: ambas deixam de ver o real por inteiro. Cada uma agarra metade da realidade e amputa a outra — e é essa amputação, e não a maldade, que as torna funestas.
A primeira cegueira: o falso realismo
O cínico diz-se realista. «Deixa de sonhar», ensina; «na política o que conta é o interesse, a força, o cálculo — o resto é conversa para ingénuos.» O seu mestre tem nome: Maquiavel, que no Príncipe separou de vez a política da moral e aconselhou o governante a aprender «a não ser bom», conforme a necessidade. É o discurso que se apresenta como o mais adulto de todos, o que enxerga a vida «como ela é».
Só que não a enxerga. Porque o bem, a justiça e a verdade também são reais — tão reais quanto o interesse e a força. Um governante que só vê poder é como um homem que só visse uma cor: não vê mais, vê menos. A ordem moral não é um verniz sentimental colado por cima dos fatos; é parte da estrutura do mundo, e ignorá-la tem consequências duríssimas e perfeitamente concretas — a confiança que se perde, a legitimidade que se esgota, a violência que volta. O «realista» que amputa a moral acaba, quase sempre, por errar até no seu próprio terreno: fez contas com metade das variáveis. O verdadeiro realismo é maior, não menor, do que o dele: vê o interesse e vê o bem, porque ambos existem.
A segunda cegueira: a ideologia abstrata
No polo oposto está o utópico — e ele não é menos cego, apenas cego do outro olho. Onde o cínico amputa a moral, o utópico amputa os fatos. Enamora-se de uma ideia de sociedade perfeita e passa a medir a realidade por ela, em vez de medir a ideia pela realidade. Os homens concretos, com a sua complexidade e a sua história, tornam-se então um estorvo: se não cabem no plano, pior para eles. Foi assim que os projetos mais luminosos no papel produziram, no século que passou, os campos de trabalho e as valas comuns. A lógica era impecável; faltava-lhe apenas o real.
É a mesma «lógica sem coração» que a via «Ver o Real» descreveu no homem que tem só a razão: um círculo perfeito e pequeno, que explica tudo e por isso já não vê nada. Em política, esse círculo tem um preço de sangue. O utópico ama a humanidade em geral e despreza os homens em particular; serve uma abstração e sacrifica-lhe as pessoas. A sua bondade declarada não o inocenta — torna-o, muitas vezes, mais perigoso do que o cínico, porque age com a consciência tranquila de quem faz o bem.
Entre as duas, o real inteiro
Repare que as duas cegueiras se acusam mutuamente com razão. O cínico vê bem que o utópico ignora os fatos; o utópico vê bem que o cínico ignora o bem. Cada um enxerga o defeito do outro e é cego para o seu. A saída não é escolher uma das metades, mas recusar a amputação: olhar o real inteiro — os fatos como são e o bem como é. Essa é a virtude que dá nome à seção seguinte, a prudência; e é o coração de toda esta via. Governar bem não é ser «duro» nem ser «sonhador»: é ver tudo o que há para ver, e agir a partir daí.
O que fazer
- Desconfie de quem se gaba de «realismo» para justificar a mentira ou a injustiça. Amputar o bem não é ver mais fundo; é ver pela metade — e costuma errar até nas contas frias.
- Desconfie, na mesma medida, de quem sacrifica pessoas concretas a uma ideia de sociedade perfeita. Um plano que só funciona com homens que não existem é um plano contra os homens que existem.
- Faça a si mesmo, diante de cada proposta, a pergunta dupla: isto respeita os fatos como são? E isto respeita o bem como é? O que reprova numa das perguntas ainda não viu o real inteiro.
Para aprofundar
- Nicolau Maquiavel, O Príncipe — o anti-modelo: a política separada da moral, lida com olhos abertos
- G. K. Chesterton, Ortodoxia — o louco como aquele que perdeu tudo menos a razão: a lógica perfeita e pequena