Prudência: ver o real e agir nele
Prudência: ver o real e agir nele
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Nenhuma palavra foi tão rebaixada quanto «prudência». Hoje ela evoca o homem cauteloso que não se compromete, o morno que evita riscos, o «vai com calma». É quase o oposto do que a tradição entendeu por ela. A prudência clássica não é timidez: é a virtude do realista. É a capacidade de ver a situação como ela é — todos os fatos, todas as pessoas, todas as consequências — e, a partir dessa visão verdadeira, decidir o que aqui e agora se deve fazer para o bem. Santo Tomás chamou-lhe auriga virtutum, a auriga das virtudes: a que segura as rédeas de todas as outras. Sem ela, a justiça não sabe como se aplicar, a coragem não sabe onde investir, a temperança não sabe onde está a medida. A prudência é a ponte entre ver o real e fazer o bem.
Aqui a via «Ver o Real» e esta encontram-se num só ponto. Toda aquela via foi um aprendizado do olhar: ver as coisas como são, desconfiar dos atalhos da mente, honrar a verdade dos fatos. A prudência é esse olhar convertido em decisão. Ela começa por onde toda boa política tem de começar — pela realidade, não pelo desejo — mas não para na contemplação: desemboca no ato. Por isso Josef Pieper pôde escrever a frase que resume tudo: só é bom aquilo que antes se conforma à realidade. A decisão justa não é a que parte de boas intenções, mas a que parte de fatos verdadeiros. Falsificar a realidade — ver o que se quer ver, ignorar o que incomoda — é o começo de toda imprudência, por mais nobres que sejam os motivos.
As partes da prudência: memória, conselho, execução
A prudência não é um lampejo; é um percurso com etapas, e a tradição nomeou-as com uma finura que ainda nos serve. Duas dessas partes tocam diretamente aquilo que o pedido desta via sublinhou.
A primeira é a memória — a memoria de que falavam os antigos: a fidelidade ao passado tal como ele realmente foi. Não há decisão prudente sobre o futuro sem verdade sobre o que já aconteceu. Quem falseia a própria história, ou a da sua cidade, decide sobre um mundo imaginário. É por isso que a memória dos fatos será uma folha inteira desta via: a prudência exige que se guarde o passado sem retoques, porque é dele que se aprende. O governante que reescreve o que fez, ou finge que o que deu errado deu certo, arrancou a primeira raiz da prudência.
Entre uma e outra estão o conselho — a docilidade de ouvir quem sabe, de deliberar, de pedir parecer, contra a soberba do que decide sozinho — e a circunspecção, que pesa as circunstâncias concretas, pois o que é certo em geral pode ser errado neste caso. E a última parte é a que fecha o círculo: a execução, ou providentia — a capacidade de transformar o bem visto em bem feito. De nada vale ver com clareza e decidir com acerto se a decisão não se realiza. Aqui a prudência toca outra exigência que esta via levará a sério: a capacidade de executar o que se planeja. Um plano que nunca vira obra é uma imprudência elegante. A prudência não termina no gabinete; termina na estrada construída, na conta equilibrada, na lei que de fato protege alguém.
A falsificação da prudência
Como toda virtude, a prudência tem imitações que a macaqueiam. A mais comum é a astúcia: a esperteza que serve não ao bem, mas ao próprio interesse, e que sabe muito bem calcular meios para fins torpes. O corrupto hábil não é imprudente no sentido corrente — é, à sua maneira, calculista e eficaz. Mas falta-lhe o essencial: a prudência serve o bem, e a astúcia serve o eu. Outra imitação é a paralisia disfarçada de cautela — o «vamos esperar» eterno que, com ar de sensatez, foge da decisão que o bem exige. A prudência verdadeira decide; a covardia só adia. E decidir a horas, aceitando o risco inevitável de toda ação humana, é parte da própria prudência: quem exige certeza total antes de agir nunca agirá, e a omissão também tem consequências.
O que fazer
- Antes de decidir qualquer coisa que afete outros, pergunte-se com honestidade: estou a ver a realidade como ela é, ou como me convém que fosse? A decisão só é boa se parte do verdadeiro.
- Cultive a memória fiel dos fatos — os seus e os da sua comunidade. Não retoque o passado a seu favor: é dele que a prudência colhe a lição. Quem falseia o que foi decide sobre um mundo que não existe.
- Não pare no ver e no decidir: leve até a execução. Um bem planeado e não realizado ainda não é um bem. Pergunte sempre «como é que isto de fato se faz?», e responsabilize-se pela resposta.
Para aprofundar
- Josef Pieper, A Prudência — a prudência como medida do real e mãe de todas as virtudes
- Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, qq. 47-51 — a prudência e as suas partes: memória, conselho, circunspecção, execução