Transparência verdadeira e falsa
Transparência verdadeira e falsa
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«Transparência» é hoje uma das palavras mais louvadas da vida pública, e com razão: pede-se que os governantes prestem contas, que o dinheiro público seja rastreável, que as decisões se façam à luz do dia. Contra o segredo que encobre a corrupção, é um bem real e uma conquista a defender. Mas a palavra esconde uma ambiguidade que convém desfazer, porque há duas transparências muito diferentes — uma que nasce da virtude e funda a confiança, e outra que nasce da suspeita e a destrói. Confundi-las é confundir a integridade com a devassa.
A transparência que é fruto da integridade
A transparência verdadeira não é primariamente um mecanismo; é um estado da alma tornado visível. É a condição de quem nada tem a esconder porque nada faz que precise de ser escondido. Retoma diretamente a folha sobre a coerência entre o dizer e o fazer: o homem inteiro, aquele em quem o público e o privado são o mesmo homem, é transparente por natureza — não porque se exponha, mas porque a sua vida resiste a ser vista. Podem examiná-lo, e ele não teme o exame, porque a luz não lhe revela contradição nenhuma. Essa transparência é fruto da virtude, e é a única que funda confiança de verdade: confiamos em quem, olhado de perto, continua o mesmo.
Note-se que ela pede prestação de contas, e não exibição. O governante íntegro deve poder mostrar o que faz com o poder e com o dinheiro que lhe confiaram — isso é justiça, é o dever do administrador que responde pelo depósito. Mas prestar contas dos atos públicos é uma coisa; expor a intimidade toda é outra. A transparência sadia ilumina o exercício do cargo; não exige que se dispam a alma e a casa.
A falsa transparência: a devassa de todos por todos
E aqui entra a deformação, que Byung-Chul Han diagnosticou com finura. A nossa época fez da transparência um ídolo, e um ídolo perigoso: a exigência de que tudo seja exposto, permanentemente, aos olhos de todos — não como fruto da integridade, mas como suspeita universal e vigilância recíproca. Essa transparência total não nasce da confiança; nasce da sua ausência, e aprofunda-a. Onde tudo tem de ser mostrado, é porque já não se confia em ninguém; e onde se exige a exibição permanente, a confiança torna-se impossível, porque confiar é precisamente poder não ver e ainda assim contar com o outro. Uma sociedade que substitui a confiança pela vigilância não ficou mais honesta; ficou mais desconfiada, mais exposta e mais fácil de controlar — pois quem tudo vê de todos, sobre todos tem poder.
Há ainda uma terceira coisa, que se disfarça de transparência e é o seu contrário: a exibição. O homem público que expõe a própria intimidade — a família, a fé, as lágrimas, a vida privada — como espetáculo calculado, não está a ser transparente; está a encenar transparência para produzir confiança que a sua vida talvez não mereça. É a transparência como técnica de marketing, o oposto exato da que nasce da virtude. A primeira mostra-se sem querer, porque é inteira; a segunda mostra-se de propósito, porque quer parecer inteira. Distingui-las é uma das leituras finas do cidadão atento: a integridade não precisa de se exibir, e a exibição costuma esconder a falta de integridade.
A medida justa
Fica, então, uma medida. Exija dos que governam a transparência dos atos públicos — o que fazem com o poder e o dinheiro que lhes confiámos —, porque isso é justiça e prestação de contas devida. Não confunda isso com a devassa da vida íntima, nem se deixe seduzir pela exibição encenada de intimidades, que quase sempre é isca. E cultive, em si e nos que serve, a única transparência que vale: a que não precisa de holofote porque não teme a luz. O homem de vida coerente é transparente sem esforço, e é essa transparência — a da integridade, não a da vigilância — que sustenta uma cidade onde as pessoas ainda podem confiar umas nas outras.
O que fazer
- Exija a transparência dos atos públicos — contas, decisões, uso do poder e do dinheiro — como um dever de justiça. Mas não a confunda com a devassa da vida íntima: prestar contas do cargo não é dispor a alma em praça.
- Desconfie da intimidade exibida como espetáculo. Quem encena a própria vida privada para gerar confiança costuma estar a fabricar o que a sua conduta não garante; a integridade real não precisa de holofote.
- Busque, em si, a transparência que é fruto da coerência, não da vigilância: viver de modo que o exame não revele contradição. Quem nada esconde porque nada faz que precise de ser escondido não teme a luz.
Para aprofundar
- Byung-Chul Han, A Sociedade da Transparência — a transparência total como ideologia que corrói a confiança em vez de a fundar
- Catecismo da Igreja Católica, §§2464-2470 — «viver na verdade»: a veracidade, a sinceridade e o testemunho